“Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo”

A criatividade, quando estimulada, pode se manifestar em qualquer um

Ainda no início do século XX, Santos Dumont se mostrou um grande inventor, quando voou pela primeira vez em um aparelho mais pesado que o ar, o dirigível. Décadas mais tarde, Walt Disney transformou seus traumas em um mundo de fantasias que lhe rendeu 22 prêmios Oscar e a adoração de pessoas de todas as idades e gerações. Ainda hoje, mesmo depois de seis gerações do Iphone, todas as vezes que anuncia um novo produto, a Apple vira o principal assunto ao redor do mundo. O que esses três ícones tem em comum?

Cada um deles pensou fora da caixa e encontrou soluções inusitadas para seus problemas. Isso os torna pessoas criativas, capazes de enlaçar o “novo” ao “útil”, a partir de uma necessidade particular. Essa característica se reflete em âmbitos diferentes na sociedade, mas seja na ciência, na arte ou na tecnologia, a criatividade desperta a atenção e a curiosidade de qualquer um.

Há muito tempo, os cientistas estudam o cérebro humano para investigar a criatividade. Acreditava-se, por vários anos, que o lado direito do órgão era o responsável por essa e outras características, como a intuição, ao passo que o esquerdo era encarregado de funções como o raciocínio lógico e sequencial. Entretanto, a partir de análises feitas desde 2010, pela Rede de Pesquisas da Mente, dos Estados Unidos, novas perspectivas sobre o assunto foram descobertas.

Segundo o professor responsável Rex Jung, muitas áreas diferentes do cérebro são envolvidas durante o processo criativo, tornando-o bastante complexo. Não é possível, então, dividi-lo de maneira completamente estanque, mostrando que a resposta não é tão simples assim. O estudo mostra que, quando se trata de inteligência, por exemplo, ele traça um caminho único entre os pontos A e B, a criatividade, por outro lado, passa por várias estradas entre um ponto e outro.

Ainda que não exista uma medida única, é fácil identificar uma pessoa criativa. Uma delas é o Spartakus Santiago, aluno de Publicidade do Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense. O estudante, além de estagiar como Diretor de Arte na Rede Globo, faz alguns trabalhos como freelancer, ou seja, transformou o talento em profissão.

Hoje em dia, ele não pode mais depender de insights criativos para desenvolver, por isso, tenta estar sempre atualizado e, quando precisa, busca referências na internet. Então, é colocar a cabeça para funcionar com papel e caneta em mãos: “Eu geralmente procuro informações sobre o universo do que o briefing aborda em sites e anuários, depois pego um bloquinho e vou rabiscando ideias”.

Se para Spartakus a criação é seu principal combustível, a também publicitária Helena Costa, graduada pelo Senac, vive outra realidade. Desde que ingressou no Mercado ela trabalha em uma multinacional. Nem por isso, ela disassocia a criatividade de seu trabalho. “É difícil pensar fora da caixa algumas vezes, principalmente quando existem processos a serem seguidos. Mas é sempre possível! Mesmo em cargos operacionais, existe o seu universo de independência, pequeno ou imenso. É ai que, nos detalhes, acaba escapando um pouco de você”, explica.

A psicanalista e professora da Universidade Católica de Brasília (UCB), Thais Sarmanho, reforça essa ideia e afirma que qualquer pessoa pode ter essa característica: “ser criativo vai muito além de ser artista, isso independe da profissão”. A especialista explica que o grande motor dessa competência é a falta de algo que perdemos na infância, a ilusão de ser o indivíduo mais importante do mundo. “O tamanho da desilusão faz com que busquemos objetos que supram essa falta. A esse movimento, damos o nome de desejo”, explica.

A criatividade seria, então, o maior caminho para obturar nossa ausência original, que nos acompanha desde cedo. “Ela é a única saída para resolver conflitos do sujeito, ou seja, ir atrás de seu desejo, um movimento inconsciente para suprir um narcisismo inicial desiludido logo na infância”, esclarece. Mais do que isso a criatividade é o principal indicador de saúde mental, é o motor da condição humana.

 

Beatriz Jorge é jornalista por formação e amiga íntima das letras. Só quem tem tanta intimidade assim consegue transitar por diversos tipos de textos com tanta fluidez, como ela faz. Na Packaging há quase dois anos, ela é nossa redatora e a melhor pessoa para traduzir em palavras esse assunto que é o motor do nosso trabalho: a criatividade.

comentários