O Colecionador de Histórias

Depois de passar pouco mais de um ano no Rio de Janeiro, trabalhar e conviver com uma cidade e uma cultura diferentes, Carlos Denis (o nosso Cadê), designer  de profissão, voltou para o Chile convencido de que devia dar outro rumo ao seu trabalho como ilustrador de livros infantis, tarefa realizada em paralelo com o design há quase 5 anos.

De lá pra cá, em alguns finais de semana, além de mostrar seu trabalho em exposições itinerantes, Cadê se dedica a oferecer oficinas de desenho para crianças e adolescentes.  “É para eles que trabalho com histórias infantis e é muito valioso poder desenhar diretamente com as crianças e ver como imaginam personagens, percebem as cores e criam suas próprias histórias”.

Cadê é responsável pelo nosso escritório em Santiago do Chile, o primeiro fora do Brasil, e ainda encontra tempo para suas criações como ilustrador de contos infantis. “O que começou como uma oficina de ilustração ou como um hobby para me afastar um pouco do computador e do estresse do cotidiano na agência, tornou-se algo cada vez mais sério. Esse trabalho também influenciou a minha renovação como designer: muito do meu trabalho de branding, o design de embalagens, se viu beneficiado com ele. As tipografias fora de comum, os traços aquarelados e irregulares se transformaram em uma marca registrada do meu trabalho, bastante valorizada pelos clientes.”.

Ao voltar para o Chile, em outubro de 2013, Cadê se dedicou a levar a ilustração a lugares onde todos pudessem apreciá-la, conectando-a com os contos e promovendo o fomento à leitura. “Estou convencido de que a ilustração é uma ferramenta muito poderosa no desenvolvimento do aprendizado das crianças. Quando me perguntam como definiria meu trabalho como ilustrador, não há duvidas: sou um Colecionador de Histórias, tanto as que ilustro para contos infantis e textos escolares, quanto as que me contam ou simplesmente invento. Através de personagens cheios de cor, com linhas elegantes e gestos delicados, interpreto cada uma delas e deixo minha marca”.

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Lindo, né? Para conferir outras ilustrações do Cadê, clique aqui   . 

E para saber mais sobre a história desse colecionador de histórias, vale usar mais um tempinho para ler o texto abaixo…

“No período em que estive no Brasil, aprendi muitas coisas, além do design. Esta Cidade me mostrou uma cultura em que tudo acontece do lado de fora, nas ruas, parques ou praias e na qual tudo é compartilhado de forma natural, inclusive o conhecimento.

Parece-me um lugar muito democrático, onde todos têm o seu espaço e convivem com alegria. Pode ser por causa do clima, que ajuda a passar mais tempo fora de casa, uma razão para todos se misturarem, o que eu gosto muito. Também percebi que existe um respeito muito grande pelas crianças, foco dos olhares em todos os lugares.

Durante esse período, fui amadurecendo uma ideia: frequentei feiras de escritores e ilustradores, oficinas com artistas plásticos, animadores e visitei galerias ou livrarias, onde encontrei conteúdos que, no  futuro, se transformariam em um  projeto muito importante em minha carreira. Foi aí que aumentou a vontade de expor as ilustrações que havia feito para contos infantis, e de ir um pouco mais além…

Muitas destas ilustrações foram criadas durante minha estadia no Brasil: a editora do Chile me enviava os contos por email e eu os ilustrava daqui, depois escaneava e enviava de volta. Às vezes, ia para o Aterro do Flamengo com uma cadeira, meus lápis, tintas e pincéis e desenhava, com o Pão de Açúcar e a praia como paisagem. Eu sempre levava algumas folhas e lápis extras porque nessas horas era comum aparecer pequenos ajudantes, que olhavam com espanto os personagens que nasciam no papel, tão parecidos com os que viam em seus livros.

Eu acredito que todos podem desenhar,  não é necessário conhecer as técnicas clássicas ou dominar todas as ferramentas, é só desenhar, bem ou mal, não importa. Muitas vezes, a valorização estética faz com que muitos deixem de fazer isso, o que me parece um grande erro. Afinal, desenhar te ajuda a entender um problema, a projetar uma ideia ou, simplesmente, a fazer um mapa para quem não conhece sua cidade.

Quando crianças, antes de aprendermos a escrever, desenhamos todos os dias e entendemos nosso mundo por intermédio de traços simples e pouco pretenciosos. Por alguma razão, porém, deixamos de fazê-lo. Em minhas oficinas, convido os pequenos a não ter medo de desenhar e, dessa forma, experimentar mais do que repetir determinada técnica. Em um espaço onde não há avaliação, é possível ousar e pensar no inusitado.

Meu objetivo com as oficinas é contribuir para o desenvolvimento intelectual e cultural da minha nação. Assim, quero levar as ilustrações e a leitura a lugares ainda mais distantes e motivar os mais novos, a partir desse trabalho.

A experiência mais recente foi no extremo sul do Chile, a mais de 700 km da Capital. Apesar de ser um destino muito procurado por turistas, a cidade de Villarrica, em Arucanía, é formada por muitas comunidades carentes. Então, a convite da Pontifícia Universidade Católica do Chile de Villarrica e da Fundação Ibañes-Atkison, participei das Jornadas Culturais de Inverno. Fui até levando 50 ilustrações originais, que integraram a exposição, e o mais importante: lápis, pincéis e muita energia para colocar a garotada para desenhar”. 

 

 

Carlos Denis

Diretor de Crianção
Packaging Chile 

 

 

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